A 1.a série latino-americana da Netflix é esplêndida. Por Paulo Nogueira

Sabe aquela série que ao chegar ao fim você fica triste como se estivesse se despedindo de um amigo numa estação de trem? Club de Cuervos, a primeira produção latino-americana da Netflix, é assim. A história gira em torno de um time de futebol mexicano, os Corvos do título. A magia e o horror, a tragédia e a comédia, a paixão e a repulsa – os autores captaram magistralmente tudo que cerca o mundo do futebol. Mas é uma série que vai fascinar mesmo uma pessoa que não se interesse por futebol, tamanha a riqueza dos personagens e do drama em torno deles. (Minha filha Camila, que não liga para futebol, não sossegou enquanto não chegou ao fim.) O ponto de partida é a morte súbita do dono do time, um magnata de uma pequena cidade que decidiu investir em futebol. Ele queria que o clube fosse o orgulho da cidade, Nueva Toledo. E conseguiu. O Cuervos, do nada, vai subindo degraus e quando o fundador morre estava à beira de se tornar um dos grandes do México. A disputa pela sucessão entre os dois filhos, um homem e uma mulher, é a chave da história. Ela, mais velha, é mais centrada e mais preparada, mas tem contra si o fato de ser mulher no mundo masculino e machista do futebol. Ele, o caçula, é um sonhador, idealista, ambicioso, só que completamente atrapalhado. Chava, seu nome, quer fazer dos Cuervos o Real Madrid das Américas, mas tudo que ele consegue é levar o time para a beira do abismo. Chava é o típico herdeiro, e não apenas do futebol: quer deixar sua própria marca, e fugir da sombra paterna. Neste sentido, os Cuervos é universal. Me lembrei, por exemplo, de Roberto Civita perante as realizações de seu pai Victor na Abril. Chava desestabiliza o dia a dia do clube ao fazer coisas que um cartola, em tese, não deveria fazer. Ele quer escalar o time, decidir os reforços etc. Isso traria atrito em qualquer circunstância, e ainda mais quando o abelhudo é um garoto inexperiente no meio de pessoas com larga e bem sucedida trajetória. A série se beneficia de imagens espetaculares de futebol, tanto dentro do campo como, principalmente, nas arquibancadas. Vi ali, nos torcedores, a paixão dos corintianos: seus berros, suas danças, sua devoção irracional. Los Cuervos é uma comédia. Você ri muito. Mas tem também elementos de um drama. Você frequentemente se comove com as situações, principalmente com as desventuras de Chava. A melhor definição para ele vem da estrela europeia que ele contratou: “Você é grande demais para esta cidade.” O México está fazendo Los Cuervos enquanto nós fazemos Babilônia. É uma dura constatação. Você chega ao final da série e pensa: “Quero mais.” Que venha a segunda temporada.

Sourced through Scoop.it from: www.diariodocentrodomundo.com.br

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