Política, sexo e a resposta a Reinaldo Azevedo: Alex Solnik entrevista Laerte

Laerte. Foto: Reprodução-Facebook
Alex Solnik
Para o Brasil247
Todo mundo se transforma com o passar do tempo. Mas ninguém que eu conheço se transformou tanto quanto o cartunista Laerte. Ele é meu chapa há mais de 30 anos, desde que se tornou um dos “três amigos”, ao lado de Angeli e Glauco. Em 2009, ele começou a usar roupas femininas e assumiu outra personalidade que se acentuou desde então. Está mais mulher que na última vez que nos vimos, há dois anos. Nesse encontro, numa lanchonete da Vila Madalena, em que falou com exclusividade ao 247 sobre política e sexo, com igual entusiasmo, ele — ou ela —  usava saia e blusa, pois fazia mais calor que frio em São Paulo, apesar do inverno. A voz, no entanto, continua grossa como no tempo em que era homem. Assim como, é claro, o talento, a inteligência e a perspicácia.
Laerte, já estou gravando. Tem que ser tudo menos uma entrevista formal.
Onde você deixou o carro?
Vim de busão.
Ontem naquele programa da Jovem Pan foi o Haddad (Fernando Haddad, prefeito de São Paulo). E na primeira pergunta do programa, que foi claramente para encurralar ele, a Raquel Sheerazade falou: “levei duas horas para chegar aqui na Paulista”. Ele falou: “você mora onde”? ”Eu moro lá em Alphaville”. “Bom, então você não mora em São Paulo, se você morasse em São Paulo você não levaria nem uma hora”.
O que atrapalha Alphaville é a estrada.
Sim, claro, a verdade é que as pessoas estão levando menos tempo mesmo para andar de ônibus em São Paulo. Não está perfeito, não está uma maravilha, mas estão, ué!  E os caras tentaram pegar o Haddad pelo lado errado. Se foderam!
São Paulo, com todos os problemas, a gente ainda aguenta. Mesmo com essas ciclovias que foram malfeitas.
Fizeram nas coxas. Estão dando munição para as pessoas que são contra.
Mas o problema mesmo é Brasília. Você está preocupado com o que está acontecendo em Brasília?
No Brasil?
Em Brasília principalmente.
Não sei. A bomba que jogaram foi aqui em São Paulo.
Isso também faz parte desse clima…
A bomba não foi em Brasília.
O que você está tomando, gin tônica?
Não, é mojito… mas não recomendo, não.
Eu não ia beber mesmo. É com tequila?
Rum, gelo, limão e hortelã.
Quer uma empanada?
Não, obrigada.
(Ao garçom) Uma empanada de frango e uma latinha de Coca, por favor.
GARÇOM: Pode ser Pepsi?
Não. Tem mais o que?
GARÇOM: Guaraná.
Então guaraná.
GARÇOM: Com gelo e limão?
Não, normal. (A Laerte) Você ficou loira…por que? O que houve? E o cabelo? Cresceu?
Cresceu e ficou loiro. Eu não sei. Um dia eu acordei olhei no espelho: ai, fiquei loira! (Ri.) Não, meu cabeleireiro chegou e falou: vamos ficar loiras? Eu falei: por que não? Eu adorei! Ficou bárbaro!
O cabelo é teu mesmo?
É meu. Tem entrada e tudo, é meu.
Você não tem cabelo branco, né?
Tenho. Bastante. Agora ficou tudo loiro. Agora eu não tenho mais.
O Gerald Thomas também tem. Mas pinta. Ele é o cara mais desencanado do mundo.
Desencanado numas, né?
Não… você conhece a história dele?
O meu terapeuta contou que ele foi babá dos filhos dele em Londres.
O Gerald foi babá? A avó dele era puta e viciada em heroína em Berlim pré-Hitler.
A dona Thomas…
A mãe da mãe dele…
A Geraldona!
Judia e puta na Alemanha. Ele com 14 anos foi para Nova York, não tinha como sobreviver…
… fez um michezão…
Não, foi michê de um hotel… homens, mulheres, casais… e ficou indignado porque eu não sabia disso. Você não sabia também?
Não. Não muda muito.
Ele fala nisso com a maior naturalidade…depois ele disse que transava com o Hélio Oiticica aos 14 anos…
Isso eu soube.
Eu perguntei: você transava em que sentido? E o Gerald: ele me comia!
E vice-versa também…
Ele fala de forma tão desencanada…
E a barbinha? Tirou? Era uma marca.
De vinte em vinte anos eu mostro a cara.
Mas fica bom sem também. Tem gente que eu nem imagino que não seja com barba.
O Lula, né. O Lula sem barba não é o Lula.
Agora a gente até acostumou.
Mas o que você está achando que vai dar? Os tucanos agora são os grandes aliados do Eduardo Cunha.
O que é um problema para os tucanos. Não acho que seja muito tranquilo.
A raposa e os tucanos. Não vai dar certo. Eu acho péssimo.
Eu fico pensando assim: boas cabeças do PSDB quem são? Não sei. Tem algumas cabeças boas?
Só o Fernando Henrique.
Mas o Fernando Henrique é um filho da puta!
É o único que fala de temas delicados, como a maconha.
E fora isso? Eu estive num encontro no Rio de Janeiro para o lançamento de uma campanha contra a criminalização do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) da Universidade Cândido Mendes. Convidaram o Fernando Henrique, o Soros, a puta que pariu, estava toda a fina flor da inteligência. O Fernando Henrique não perdeu uma ocasião de meter o pau na Dilma e no PT! Uma!  Todas intervenções dele eram “não, porque o governo federal hoje parariparará”… “não, porque a presidenta hoje, pararipararaá”… Ele gostou da campanha que a gente fez contra a proibição que envolve cartuns e os cartuns estavam expostos, ele elogiou e falou “eu achei legal os cartuns só espero que não digam que a culpa é do Fernando Henrique”. Eu quase levantei nessa hora e falei: nem da Dilma, né, seu filho da puta! Oportunista! Bom, mas, enfim, não falei. O fato é que logo em seguida o governo de São Paulo proibiu a veiculação dessa campanha nos ônibus daqui. Governo Alckmin!
Mas os ônibus não são municipais?
Não, nos interestaduais, os municipais não têm autorização para veicular campanha publicitária. Foi uma ordem de cima, baixada. “Isso aí não pode. Isso aí é apologia às drogas”. Então vocês estão acusando o presidente da bosta do partido de vocês de fazer apologia às drogas também? Claro que estão.  O presidente e Deus deles, Fernando Henrique Cardoso, chefia uma campanha internacional muito bacana, da qual eu sou super pró, acho que é a única merda interessante que ele fez na vida. Estou com bode desse cara porque ele é muito antiético. Aí o governo Alckmin proíbe a campanha!
Mas o governo de São Paulo é Alckmin que todos dizem que é TFP. Como acontece em vários partidos, o PSDB abriga desde a extrema-direita, como o coronel Telhada até a centro-esquerda.
Eu sei, mas então assumam!
Ficou uma geleia geral.
Isso é verdade. Mas você perderia a oportunidade de pegar o Alckmin no saco e dizer olha, o presidente do seu partido apoia…
Aqui no Brasil não sabemos qual é o programa do partido porque o programa é criado conforme as circunstâncias e o momento.
Eu não estou entendendo. Você está defendendo o PSDB e o governo de São Paulo?
Não. Claro que não. Eu quero saber a sua opinião.
O que eu estou querendo dizer é que foi feita uma censura. O governo de São Paulo exerceu um papel censório sobre um debate de ideias que a gente estava propondo. Esse debate de ideias conta com o aval e o aplauso do presidente do PSDB. Então, eu estou jogando essas coisas na mesa.
Você quer dizer o Aécio?
Não, o deus do PSDB.
O presidente do PSDB é o Aécio….
Bom, esse já foi surpreendido dirigindo bêbado. Esse é pela liberação até do volante.
Mas, enfim… O que você acha que vai dar?
Eu não sei… eu não faço a menor ideia.
Será que a Dilma se segura até 2018?
Eu não sei… você está me consultando?
Estou perguntando porque também não sei.
O povo está dizendo por aí que não querem mais golpe e querem que a Dilma se frite até 2018, para deixar o Lula bem fraco. Amolecer a lula. A gente está falando de um joguinho de campeonato. Ninguém está falando do país. O governo perdeu uma série de pés. Não sabe mais onde se apoiar. Está tentando sobreviver politicamente com coisas imediatistas: nomeia esse aqui… aquele ali… em nome da sobrevivência. Mas perdeu o seu plano. Se é que tinha, perdeu-se. E eu estou preocupada, sim, eu acho que a direita aproveita isso muito bem para avançar o mais que pode…
Um dos juízes da Lava Jato outro dia organizou um ato evangélico contra a corrupção. Os evangélicos estão em toda parte.
Até no PSOL… Até onde eu sei o PSOL tem evangélicos que são de esquerda e tinha um maluco que foi ejetado.
Ele queria só mudar a constituição. Em vez de “todo o poder vem do povo” ele queria colocar “todo o poder vem de Deus”.
Sensacional. (Ri) Eu acho muito legal esses episódios. Esse episódio está mais para o engraçado. Mas o problema não são os evangélicos.
Eles são muito conservadores.
O islamismo também é. Mas o problema não é o islamismo. O que atacou o Charlie Hebdô não foi o islamismo, foi o Estado Islâmico. É diferente. É um grupo. É um grupo de gente organizada com um pensamento muito claro. O que eu acho que está havendo com a evangelização…
Você quase falou Angeli… você sabe que ele nem respondeu meu pedido de entrevista.
O Angeli… o Evangelista… está na dele. Ele está numa situação muito difícil, eu acho. Acho que sim. Está meio deprê.
Só vejo charge triste dele. O que está acontecendo? Charge tem que ser alegre.
Não. Nem sempre. Não tenho visto clima para muita alegria, não. Tem que ser porrada, tem que ser agressividade.
Quando eu estava preso no DOI-Codi, imagina o clima, tortura o dia todo, mas chegava no fim do dia as pessoas cantavam. “Marinheiro só”.
Não é uma música muito alegre.
Não é, mas as pessoas cantavam, apesar do sofrimento. Tinham ânimo para cantar.
Mas a caricatura não precisa ser alegre. O humor não precisa ser alegre.
Humor pode ser triste?
Humor não é sinônimo de alegria.
Não?
Não. Alegria é uma coisa, humor é outra. Humor é um mecanismo que a gente tem, muito profundo, muito complexo que não tem a ver com alegria. Alegria é você tomar um sorvete de limão. Sei lá… gozar.
Gozar é a maior alegria.
Mas o gozo do humor é diferente. É intelectual. Ele se dá no plano do raciocínio. Não necessariamente ele significa gargalhadas. Por isso eu tenho algumas ressalvas em relação a esse Risadaria. Até pelo nome. Virou uma coisa meio a risada a qualquer preço. Conseguir uma risada significa o sucesso, não importa a merda que eu falar.
Isso é muito vazio.
Isso não é vazio, é o momento que a gente vive. O humor no Brasil hoje tem um significado e um peso que fugiu do humor gráfico e migrou para o humor verbal. Quando o Charlie Hebdo foi atacado a questão que se levantou no Brasil foi: mas e os limites do humor? Eles estavam se referindo a um humor local, francês, europeu e transportando para a realidade brasileira cuja última memória era de natureza conservadora. Para se opor a manifestações mais conservadoras ainda. É muito louco! Aquilo a que os franceses estavam se opondo na França – o fundamentalismo religioso – está no poder no Brasil. Está impondo regras! Não é uma comunidade que está sendo humilhada, espezinhada. Aqui no Brasil está no Congresso, tem uma puta bancada, está impondo leis, está brecando tudo. Naquela época tinha um cara na comissão de direitos humanos sabotando todas as lutas. É uma situação bem diferente. E principalmente isso: a última vez que o humor gráfico foi escândalo no Brasil foi no tempo do Pasquim.
Não tem nenhum jornal de humor atualmente.
Ou tem todos!
Não tem nenhum Pasquim.
Entendi. Não tem Pasquim. Não é para ter mesmo. A rede está cheia de Pasquins.
Você gosta do Porta dos Fundos?
Muito. Eles são o Pasquim hoje.
E por coincidência o filho do fundador do Pasquim, o João Vicente, que eu conheci com sete anos está na Porta dos Fundos.
Eles não estão atrás só do quá-qua-quá não. São bem consistentes. O próprio Pasquim. Que grande consistência era essa? Naquela época do Pasquim é que não tinha nada, era uma repressão filha da puta, uma censura filha da puta, o Pasquim era uma espécie de oásis, agora, ele não era um oásis que produzia uma bíblia, muito da produção cultural e dos padrões culturais do Pasquim são bem questionáveis.
Mas era o único que defendia a anistia.
Sim, mas hoje nós não estamos mais nessa, em que momento a gente está hoje?
Em qualquer momento que seja não entendo como um país que se diz tão bem-humorado não tenha um só jornal de humor.
O que coloca em dúvida se a gente é tão bem-humorado. (O garçom serve mais um mojito a Laerte.) Obrigada.
Em todos os bares da cidade e de todas as cidades do país você encontra pessoas rindo.
Pois é, mas rir não é sinônimo de humor.
Porque tem o bom humor e o mau humor.
Peraí! O bom humor e o mau humor se refere ao mesmo humor. Existe alegria ou não existe alegria? É um ou zero? Escuro ou claro. Isso é uma coisa. Isso se refere a uma acepção da palavra humor. Agora, a outra acepção da palavra humor que eu acho que se refere a raciocínio, a um recurso da linguagem humana, é diferente, não tem a ver com risada, nem com tristeza. (Toca o telefone dele.) Desculpa, Alex. (Ao telefone.) Não tem fuso horário, cê não soube? Foi abolido o fuso horário no Brasil! A Cinderela espetou o dedo no fuso horário e… É mesmo? Escuta, hoje eu vou ver o show da Phedra, a última apresentação dela. Ah, mas então vai, vai nessa, dá uma descansada também, sua louca! Não dá, Márcia! Você ainda é jovem, mas… (Desliga) A Márcia estava em Cingapura.
Quem é Márcia?
Márcia Rocha. É uma amiga, companheira querida, ela faz parte de uma associação mundial que lida com saúde sexual. Ela é advogada, mas ela é trans e é uma pessoa do movimento. E ela está nessa associação que elabora conceitualmente as questões debatidas pela ONU. É uma associação que existe a nível mundial, com representantes de genética, sexologia, de vários setores e que se reúnem para discutir ideias e conceitos que vão abastecer as resoluções de entidades como a ONU. Eles elaboraram alguns anos atrás a Declaração dos Direitos Sexuais da Humanidade. E que é muito interessante. [Márcia foi entrevistada por Solnik e seu depoimento será publicado nos próximos dias]
Você tem isso?
Tenho. Posso te mandar. Porque ela foi rediscutida e atualizada agora com a participação da Márcia. E a Márcia agora foi para Cingapura na reunião dessa associação.
Ela é transexual?
Ela é trans.
Ela é operada?
Não. Ela é o que a gente chamaria de travesti. Ela não é operada, nem quer se operar. Mas é uma mulher. Você olha… tem peito, tem bunda…
Peito como? Naturalmente?
Com hormônio…
Mas tem pau?
Tem. Quer dizer… não é uma declaração que eu possa estar autorizada a fazer.
Minha pergunta é sobre uma questão anatômica.
Cá entre nós, eu digo que sim, tem. Mas transformar isso numa informação pública tem que perguntar para ela. Costumeiramente se diz que os transexuais têm um desconforto tão grande com seu corpo que cirurgicamente mexem nele. Agora, essa mexida é também muito variável. Se você nasceu com pinto e quer não tê-lo, cirurgicamente há uma resposta para isso; se nasceu mulher com boceta e quer um pinto, cirurgicamente a resposta é muito diferente… é complexo…
Tirar é simples – se faz isso há sessenta anos, mas pôr é quase impossível eu diria.
Tá vendo? Você fala em “tirar” e “pôr”. Como se o pinto fosse algo que existe e a boceta não. (Ri.) Você percebe? Isso é uma visão de gênero. É como se a boceta fosse um não pinto. A Márcia usa o pau dela desde sempre. E não está a fim de tirar. Nem eu. Mas aí é uma questão… se você quiser publicar, tem que falar com ela.
Claro. Vou falar com ela. 
A Márcia é uma advogada, se formou em Direito, tem o exame da Ordem, mas ela é empresária. Recentemente ela entrou na OAB como parte da comissão de diversidade. E ela é do movimento, ela tem sido militante de diversas formas…
Passa depois o e-mail dela, eu faço um box com uma entrevista com ela.
Ótimo.
Mas você concorda que um pau é que faz toda a diferença?!
Não. Não. Você está falando da genitália, né? Se você está falando que o pau é diferente é porque você está colocando-o num status diferente em relação à boceta.
O pau faz toda a diferença no seguinte sentido. Minha dúvida é sempre essa. Travesti tem pau, pode ser pequeno, pode ser grande, agora, ele goza pelo pau…
Não. Goza com a cabeça, como todos nós.
Ele ejacula.
Sim ou não. Eu, por exemplo, não ejaculo.
Não???
Não. Eu gozo sem ejacular.
Como assim???
Eu fiz uma intervenção na próstata que mudou a conformação. Agora, muitos homens gozam sem ejacular.
(Chega o garçom.)
GARÇOM: Pois não.
(Ao garçom) Eu quero uma empanada de…
GARÇOM: Tem de carne… frango… palmito… Mais um mojito?
Não, eu não gostei… eu queria uma outra coisa geladinha… o que eu queria?
Eu não sabia que tinha essa intervenção na próstata.
Tem. Quem tem hiperplasia prostática… você teve ou não?
Sim.
A próstata incha, fica uma dificuldade de mijar…as pessoas tomam remédio ou fazem uma intervenção que tira o miolo da próstata.
E aí não ejacula, claro.
(Ao garçom.) Olha, vê outro mojito. Duas coisas: primeiro pede para usar água com gás, segundo pede para usar umas rodelas de limão. Obrigada.
É o que se chamaria ficar impotente.
Não.
O pau levanta?
Levanta!
Mas não ejacula?
Não ejacula, só não sai esperma. Não tem esperma, porque o esperma vai todo para a bexiga.
Mas você sente?
Muitos homens não ejaculam.
Você tem a sensação da ejaculação?
Sim. É possível também ter orgasmo sem ejacular. Tá esquisito.
O que? A empanada?
Sim. Você não achou?
Não.
Da próxima vez vamos ao El Guaton, tem um aqui na Mourato Coelho, onde tem uma empanada chilena muito boa, bem melhor que essa.
Essa é argentina.
A gente tem uma forma de enxergar a sexualidade que é genitalizada, a partir da conformação genital. Criança nasce com pinto, é homem, portanto gosta de mulher. Portanto vai torcer pelo Corinthians ou pelo São Paulo. Vai se comportar como homem. As coisas estão mudando. E mudando de formas muito diversas. A Márcia, você olha, é uma mulher. Uma mulher bem grande, aliás.
Já foi homem?
Tecnicamente ela é um homem. E ela se relaciona sexualmente com mulheres…
Com mulheres???
Sim… gosta de mulher… você está entendendo? Eu conheço transexuais operadas, que fizeram a neo-vagina e que se relacionam com mulheres, como lésbicas.
Essa operação de neo-vagina começou nos anos 50, né? Coccinele foi a primeira…
O João Neri é o primeiro homem trans operado no Brasil. Foi nos anos 70. E foi absolutamente proibida qualquer notícia sobre a cirurgia na época. Era proibidíssimo.
Continua proibida no Brasil?
Não. Não só não é proibida como é oferecida pelo SUS.  Só que a espera é muito grande. O processo que o SUS exige para atendimento dessa demanda leva anos.
Laudos médicos, tudo isso?
Psicológicos…
Tem que explicar direitinho?
É uma coisa complicadíssima. A pessoa tem que provar que faz jus àquela operação. Então, é um sistema que reconhece, em parte, uma determinada realidade, mas em outra parte se comporta de maneira moral e eticamente conservadora. Primeiro, precisa fazer dois anos de análise. Como é que você exige que uma pessoa faça análise? Análise só funciona se for voluntária. E aí tem clínicas particulares, uma delas, das mais conhecidas era do Jalma Jurado, é com J, sem D…que foi processado agora, é um cirurgião que fez dezenas de cirurgias e está sendo processado por maus procedimentos, gente que acha que foi lesada e tal… Eu conheci o Jalma… ou era outro cara? Ou era o Jalma? Eu conheci alguém lá em Curitiba numa conferência de travestis, transexuais, a discussão estava girando em torno de direitos civis, de práticas, gente que fez isso, aquilo, quando chegou na hora da exposição desse cirurgião, acho que era o Jalma mesmo, nossa, virou um frisson. Há uma grande ansiedade das pessoas trans em relação à possibilidade de transformação cirúrgica dos seus corpos. Eu acho que essas vivências todas têm a ver com a realidade do momento que a gente vive. Nós vivemos um momento em que isso é um tabu, isso é um problema. Não é uma coisa simples. Não há uma tranquilidade social em relação à transsexualidade. Ainda há uma vivência social completamente marginalizada na população trans de modo geral, elas ainda são estimuladas para a prostituição e ao tráfico como prática de sobrevivência em larga escala – estou falando em Brasil…
Tem algum censo? Sabe-se quantos são?
Não. Acho que tem quem faça levantamento. Mas é muito mais estimativa do que censo. Então, quais os motivos que levam uma pessoa trans a querer mudar o seu corpo? Muitas vezes esses motivos estão vinculados ao exercício da profissão, à prostituição. “Eu preciso de uma bunda porque isso vai representar no meu trabalho um ganho muito grande”. Mas eu fico pensando: e se não fosse isso? Se a pessoa não precisasse ter pulado fora da escola, ter sido expulsa da comunidade, não tivesse sido violentada no lar… se essa pessoa tivesse tido uma infância tranquila, uma adolescência tranquila e tivesse a possibilidade de escolher profissões, eu quero ser isso, eu quero ser aquilo… ela não precisaria de uma bunda tão grande?. Eu não sei, são questões difíceis de responder.
Para você em termos de trabalho melhorou, depois que virou mulher, não?
Foi muito melhor! Para mim, sim. Foi melhor sob todos os pontos de vista. Primeiro, eu me sinto muito mais tranquila em relação à minha expressão pessoal, eu sinto que sou mais eu e cada vez mais, é um processo, é uma identificação que aumenta. Em relação a trabalho também, as pessoas estão me aceitando e não tem nenhuma restrição…
Você está fazendo TV?
Canal Brasil. Eles compraram a ideia e financiaram a produção de 26 programas… A ideia é de uma produtora que tinha feito um curta sobre mim… está tudo gravado… está tudo lá…eles estão colocando na grade da meia-noite de terça-feira…
O assunto é trans?
Não, o assunto é qualquer assunto. Eu convidei João Silvério Trevisan, Zé Celso, Paulo Lins, Gregório Duvivier… amigos… e pessoas amigas de amigos. Para conversar sobre tudo. Eu convidei a Márcia, convidei a Maetê Schneider, que é outra trans. Tudo indica que vai haver uma segunda temporada. Eu não tenho mais energia para ficar virando noite. O Angeli tem. Mesmo porque ele só trabalha à noite. E dorme de dia. Eu não consigo. Eu preciso do dia.
O sol dá energia, a lua não tem energia nenhuma. A lua suga. Fora o banho de lua da Cely Campelo.
De alguma forma você está ecoando o papo do pênis e da boceta. O pênis é o sol, a boceta é a lua.
Não, a boceta é uma caverna.
A energia vem do pau. Sabe quem vem aí? O Adão.
Vem de onde?
Vem da Argentina. Ele casou com uma argentina e tem dois filhinhos argentinos. Mora perto de Córdoba. Ele está feliz feito pinto na merda. E não tolera piada sobre argentino. Outro dia ele fez uma piada sobre travesti. Era uma coisa escrota, era um travesti com um gogó enorme dizendo que fez uma operação de implante de gogó porque usava o gogó como penetrador. Uma piada bem Adão. Aí, claro, o pessoal caiu de pau em cima dele. Ah, seu transfóbico! E ele reclamou. Eu falei: Adão, você, seu filho da puta, não tolera piada com argentino porque você mora na Argentina, qual é o seu problema? As pessoas reclamam, claro que reclamam. As pessoas que estão reclamando da sua piada são travestis, são eu, por exemplo. Então, pombas, usa a sua cabeça.
Você passou quantos anos na sua fase homem?
Sessenta! Quase tudo. Na verdade, 53, 54 anos. Eu comecei a virar mulher, mas devagarinho. Homem mesmo, sem questionar o gênero, 53 anos.
É uma idade em que essa transformação não tem muito a ver com o sexo em si…
Tem. Eu sou sexualmente ativa. Cada caso é um caso. O meu caso é muito diferente da maior parte das pessoas que eu conheci. As pessoas que eu conheci nesse contexto transexuais, travestis, cross dressing sabiam claramente, desde os cinco anos de idade que eram mulheres. Queriam ser mulheres. Todas essas variantes. Mas desde criança. Eu não. Eu comecei a lidar com questões difíceis não na área de gênero, mas na área de sexo mesmo. Na área de desejo. Quando eu comecei a minha vida sexual não foi com mulheres, foi com homens. E isso foi muito perturbador para mim. Eu não estava questionando se era homem ou mulher, eu estava questionando quem eu queria. E isso era muito perturbador. Quase uma maldição. Passei uns dois, três anos vivendo a homossexualidade e tranquei quase conscientemente. Não foi muito conscientemente, mas foi quase. Era um problema muito sério para mim. Agora, o fato de ter bloqueado o problema não elimina o desejo que estava por trás daquilo. Passaram-se tantos e tantos anos e as coisas começaram a ficar insuportáveis, a ponto de chegar um dia e dizer não, não dá, três casamentos com mulheres que foram pro vinagre! E seguidos de muita atividade homossexual. Tem que ter algum significado. Aí eu aceitei, pensei direito no assunto e aceitei. Não, é isso, não vou mais brigar com esse fato. O fato de ter aceito me deixou numa paz tão legal que me fez alguns anos depois aceitar a transsexualidade, que é diferente, é uma espécie de outro tema. Orientação sexual e gênero são conectados, embora sejam autônomos. Então, eu poderia continuar transando com homens sem virar mulher.  Mas eu quis fazer essa passagem, esse movimento. Isso, não sei, tem me deixado bem satisfeita. Bem legal. Agora, essa é uma história diferente. Para muitas pessoas, o problema do gênero é que é fundamental. A orientação sexual é quase um elemento secundário nisso.  Tem muitas pessoas trans que curtem pessoas que seriam o sexo oposto. O que coloca em questão se essas categorias todas homossexual, heterossexual ainda fazem sentido. Eu não sei, eu acho que não fazem, não. Eu me sinto mulher, mas tenho pênis e transo com homens.
———————————————-
Da página de Laerte no facebook (depois de Reinaldo Azevedo tê-lo chamado de “baranga moral”)
Sobre o Reinaldo Azevedo.
Acho que eu não devia dizer o que vou dizer, mas minha advogada opinou que não vai gerar ação na justiça. E minha analista deu força, pra botar pra fora senão somatiza e piora a situação das varizes.
Então lá vai – esse cara me dá um tesão desgraçado.
Não sei o que é – tá, ele não é um ogro -; se é o olhar decidido, o nariz, os lábios, não sei!
Nessas noites de frio que vem fazendo eu fico debaixo das cobertas e, como diria o Henfil, peco demais….Vou acabar tendo que depilar a mão com cera espanhola. Acho que tenho sindrome de estocolmo platônica.
————————————————–
Não importa como eu uso meu pênis, meu corpo. Eu sou homossexual, transexual ou heterossexual? Essa questão fica meio esfacelada.
O homem cataloga tudo.
Mas cataloga segundo um ponto de vista, eu acho, moral.  Quando você fala que alguém é homossexual o que está catalogado não é o desejo daquela pessoa, mas as relações sexuais que ele mantém. Então você está fazendo uma catalogação em função das relações sexuais que ele mantém. É um julgamento moralista. Ah, é homossexual! Ah, é heterossexual! Ah, é bissexual!  Quando você aprecia só o que está no desejo da pessoa você se livra desse problema. Ah, eu gosto de homens. Ah, eu gosto de mulheres. Ou eu gosto dos dois. Ou não gosto de nenhum. Tanto faz quem é você em termos de gênero. Essas questões eu acho que estão na pauta da modernidade e não são muito simples. Nem para a mente conservadora nem para a mente LGBT. Não é uma questão tranquila nem dentro da comunidade LGBT, se você quer saber.
Você falou a sério isso de ter tesão no Reinaldo Azevedo?
Alex. Ô, Alex! Eu só busquei o melhor caminho para desempedrar o discurso dele, todo feito de ódio, rancor e desprezo pelos outros. Tomei o caminho de um território novo. Eu não tinha lido o texto do Reinaldo – sabia o teor do negócio porque já li outras coisas dele. Mas eu li. É muito violento. Não dá para virar amiga dele, não.
Você não vai escrever um livro sobre você?
Ih, tanta gente já escreveu!  Ah, sobre a minha história? Eu quero. Eu gostaria. Eu gostaria de escrever o que uma pessoa na minha condição viveu dos anos 70 até hoje. Em termos de sexo e política. É que as ideias em torno de sexo e política são muito ricas e muito definidoras também. Olha só quanta gente a gente está tendo que bloquear no facebook! Quantos amigos a gente está tendo que mandar à merda porque descobre que o cara pensa muito diferente da gente. Por que? Por que no tempo da ditadura estava todo mundo de acordo e agora… nossa senhora! Virou um cu pra conferir! Eu tenho tido problemas bem grandes!
Que problemas?
Gente que estava ali… O facebook estabelece um padrão de relações no qual você é amigo, amiga, seguindo e não seguindo. Agora, isso não tem correspondência com a vida mesmo. Às vezes você acrescentou como “amigo” e “seguindo” quase burocraticamente, uma pessoa que você conheceu há 30 anos, aí está como “amigo” e “seguindo”, mas isso não quer dizer que você partilhe. Aí, uma pessoa que está te seguindo se dão ao direito de colocar na sua timeline uma postagem escrotíssima, e você fala: o que é que é isso? Aí você chega e fala “fulano você pensa assim”? “Penso, por que vai encarar”? Aí você fala, deixa eu tirar o “seguindo”. Daí você pensa: mas por que ele é teu amigo? O que não quer dizer que você não seja mais amigo. Quer dizer que, em termos de facebook você não quer ficar escutando essa xaropada do sujeito. O facebook substituiu em larga medida a esquina, o bar.  No twitter tenho ouvido cada coisa: filha da puta, sua veia comunista…você é feia pra xuxu… onde você mora? Coisas desse tipo. Eu vou dando bloque, bloqueio, bloqueio, bloqueio. Beleza. Mas no twitter você não adiciona ninguém. Automaticamente quando você entra você pode ser adicionado por todo mundo. São territórios estranhos.
(Passa um transeunte.)
TRANSEUNTE (a Laerte): Sou seu fã, cara!
Obrigada.

Sourced through Scoop.it from: www.sul21.com.br

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